quarta-feira, janeiro 24, 2007

Felisberto Hernandez


"O Cavalo Perdido e outras histórias"

Músico e poeta Uruquaio (1902-64), contemporâneo de Borges e Onetti. O livro foi prefaciado por Julio Cortázar, com comentários de Ítalo Calvino e Davi Arrigucci Jr, que com "curiosidades indiscretas", nos presenteia com uma exelente explicação sobre o autor Felisberto Hernandes.
Ao meu ver, uma leitura maravilhosa. Ele nos leva a planos intrigados em sua fala, reconstrói a realidade com as associações de idéias, sejam dos sonhos ou da memória, fazendo um jogo de cadência de frases musicais que seduzem e alerta-nos para coisas inusitadas, para objetos do cotidiano esquecidos e abandonados. Abarca os planos de sua narrativa com outros planos, criando estruturas oníricas de seu imaginário, cruza dimensões das percepções inesperadas, volta e as inscreve no real.
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segunda-feira, dezembro 11, 2006

Ferreira Gullar

Relâmpagos

Livro de Ferreira Gullar


Anotações de leitura:


“ A arte verdadeira é sempre nova”.

Coisas cerebrais são meio satânicas. Demônio não tem afeto. É só cérebro. A arte não, ela tem alguma coisa de anjo.

“A vanguarda está morta e só falta enterrar.
Ela se esgotou.

Toda obra de arte contêm o novo.

A sensorialidade pura é um niilismo típico da vanguarda.”

A ciência não é mais importante que o sentimento e a emoção.

O homem não é só ciência. É sonho e fantasia, e isso tem que ser preservado.

A arte nasce do particular. Não existe arte cosmopolita. O internacional é nacional de algum país, (Mário de Andrade, por ex., todo artista têm uma história. Valéry já dizia que não descobriu nada no mundo que não estivesse no seu jardim.

“Para transformar uma emoção ou uma experiência de vida em arte é necessário que isso ganhe forma”. E, nisto está a originalidade da obra. Se você é Picasso, vai criar uma forma contundente. Renoir criaria uma forma doce. A forma se impõe por uma energia própria que está dentro de cada um.


“Gosto de reflexão efetiva e não de embromação.”

“Pensar claro é uma arte.”


#1

quinta-feira, novembro 09, 2006

Jean-Paul Sartre



O Seqüestrado de Veneza

Satre nos leve ao início desta leitura à Veneza, entre seus reflexos e sombras, relatando: “Em Veneza, basta um nada para que a luz se torne olhar. Essa imperceptível distância insular, essa constante defasagem, basta que uma luz as envolva para que a luz pareça um pensamento...”

Lugar dos deslocamentos e memórias: “Em Veneza, o silêncio se vê, é o desafio taciturno da Outra Margem”.

O lugar aqui é uma espécie de alegoria da narração, para nos fazer adentrar à inspiração do personagem “Tintoretto”, na biografia recuperada do pintor, por um cotidiano permeado de comércios , organizações e políticas de uma elite, que o artista enfrentou e resolveu em Veneza.
Sartre afirma: “apesar desta margem de realidade social, que fomentou o trabalho do pintor, ele foi em primeiro lugar, um apaixonado pela cidade”. “Tintoretto nasce em uma cidade transtornada, respirou a inquietação, ela o corrói, é a única coisa que ele sabe pintar.”

Bruno Schulz


Lojas de Canela

Autor: Bruno Schulz

O autor polonês (1892-1942) reconta “a história de uma certa família, numa certa casa numa cidade provinciana- não através de dados objetivos, mas pelo sentido essencial de suas memórias, fantasias, intuições e temores de uma criança nesse período de vida. É um poeta outonal e relata, a natureza das coisas que passam.

“ As camas por fazer o dia inteiro, cobertas de lençóis amarrotados e atolados em sonhos pesados, pareciam barcos fundos, prontos para partir rumo aos labirintos úmidos e enredados de uma Veneza negra e sem estrelas.” São seus sentimentos ao falar de seu pai ,que adoecia, o quarto como um reduto de silêncio e abandono.

Leitura -2005

Ítalo Calvino

As cidades Invisíveis

Ítalo Calvino


Leitura que deve ser calma, de quem é Turista em lugar desconhecido, que fica atento aos detalhes da cidade e se esquece do tempo. Porque o autor nos ensina a admirar os detalhes, como quem tem diante de si uma escrita gótica, como quem ouve, sente e vê pela primeira vez, e se debruça sobre um pergaminho com medo de suas folhas frágeis e delicadas.
As cidades invisíveis guardam estes mistérios, de véus e ondas de ventos, de sabores e odores do lacre ocre de uma carta antiga, onde o que se encontra, são novos labirintos, novas passagens subterrâneas deste conhecer.

Porque representa uma viagem ao desconhecido, pelos sentidos do prazer e do sonho. A cidade de “Diomira”, por exemplo, que guarda sua beleza pelo rumor de um gemido na noite de luar, ou por uma esponja de uma onda que reflui das recordações e se dilata como em “Zaíra”, outra cidade, como outras e outras de mistérios.
Na cidade de “Tâmara”: -“os olhos não vêem coisas mas figuras das coisas que significam outras coisas”
E, que bela viagem nos faz Calvino por entre esses manuscritos de geografias diversas, onde o segredo, não é ao meu ver, percorrer as cidades que se sucedem, ou tentar localiza-las em lugares já vistos, mas deixar que as cidades invisíveis falem por suas diversidades, e sejam conhecidas como uma partitura musical, da qual não se pode modificar ou deslocar nenhuma nota, apenas ouvir, como em “Zora”, outra cidade, onde somos obrigados a permanecer imóvel e imutável, para facilitar a memorização de suas paisagens, e não adianta ter pressa.

Em Palomar :” Não podemos conhecer nada de exterior a nós próprios que nos supere (...) o universo é o espelho em que podemos contemplar apenas o que aprendemos a conhecer em nós”

Nas cidades invisíveis “As vezes o espelho aumenta o valor das coisas, às vezes anula. Nem tudo o que parece valer acima do espelho resiste a si próprio refletido no espelho. As duas cidades gêmeas não são iguais, porque nada do que acontece em Valdrada é simétrico: para cada face ou gesto, há uma face ou gesto correspondido invertido ponto por ponto no espelho. As duas Valdradas vivem uma para outra, olhando-se nos olhos continuamente, mas sem amar”.

É uma leitura para aprender a ver, a sentir, onde o foco é o devaneio do tempo retido do olhar, e não a coisa vista. Olhar que produz estranhamento, e por produzir ilusão, ao meu ver nos possibilita uma gramática visual: “ o ar tem cor”.

JGS – Julho/04

Jonh Ruskin


Bibliografia : Ruskin

Ninguém fez melhor para escrever sobre Veneza como John Ruskin (1819-1900) na sua experiência religiosa da beleza. O séc. XIX elegante, foi obcecado por seus escritos, assim como o séc. XX foi por Proust. Este, aliás, o traduziu para o francês.
“As Pedras de Veneza, deve ser lida e relida, como o fez Ruskin, um apaixonado ao descrever todas as igrejas, todas as paisagens, assim como a descrição das Obras de Tintoretto, Canaletto e outros em seus lugares de origem.

O autor, apesar de ser lembrado como crítico de arte, foi também poeta e desenhista. Seus ensaios sobre arte e arquitetura foram influentes na era Vitoriana , e repercutem ainda hoje por aqueles que curtem uma boa leitura.

Jorge Semprum


Jorge Semprum : “A escrita ou a vida”

Ed. Comp. Das Letras

Comentários: Jorge Semprum, jovem espanhol, relata suas vivências ocorridas, em abril de 45, ao tornar-se um exilado, por volta de dois anos, no campo de concentração de Buschendwald. Quando retorna para Paris, evita falar dessa experiência optando pelo silêncio de cautela, que logo se tornou silêncio de sobrevivência; pela densidade de uma experiência indizível de memória, pela substância de dor e angústias. Fez deste testemunho um relato de densidade transparente, um espaço de criação e elaboração. Não ficou apenas na dor do ocorrido. Retorna aos fatos, como quem retorna de uma viagem que o transformou; em alguém capaz de usar sua consciência e construir as ausências com a atitude ativa do sofrimento: “ ... sinto-me flutuar no futuro dessa memória. Haveria sempre essa memória, essa solidão: essa neve em todos os sóis, essa fumaça em todas as primaveras. (pág. 140).

Nenhuma obra de arte surge do nada, lembrei-me de ter lido essa frase em algum lugar, e a retomo como aforismo ao ler este livro; uma pintura surge de algo, de memória, de sensações, mas também de uma ação sobre o que se lembra, e no que se produz, esta substância de uma vivência dos que sabem fazer de seu testemunho um espaço para reflexão e criação. Trabalho de elaboração entre memória e ação, daquilo que se viveu e se produz.

Paul Auster


Paul Auster: “ A invenção da Solidão
Ed. Companhia das Letras

Comentários: O autor fala dos fragmentos de memória, que fluem da infância a maturidade, subscrevendo o “eu” destas experiências: o que é real?, quais as coincidências, as sintonias e sinfonias desta memória ao rever o passado e prever o futuro. Os acasos que projetam enigmas ou se desvendam em novas tramas: “ Tão logo penso uma coisa, ela evoca uma outra, depois outra, até que há um acúmulo de detalhes tão densos que sinto que vou sufocar. Nunca antes estive tão consciente da fenda que separa pensar e escrever.”.

A memória como resgate ontológica de si, como indício de presença e linguagem, como páginas escritas nesta solidão intransferível e verdadeira do real, que se constrói no tempo presente, como ele diz: “ Foi, nunca será de novo. Lembre”. Importante pensar que isto se refaz na pintura, nos questionamentos de memória e ação do pintar.

Mia Couto


Bibliografias


Mia Couto : “O fio das Missangas”
Ed. Caminha

“Onde nada se passa tudo pode acontecer”.